As associações que prestam apoio directo a famílias endividadas são unânimes: há mais pedidos de apoio e situações que se vão agravar no futuro

A quebra de rendimentos devido à crise provocada pela Covid-19 está a deixar muitos portugueses sem possibilidade de pagarem os compromissos com a habitação, apesar das medidas de apoio do Governo e das câmaras.

“Verificamos um aumento significativo”, constata Arnaldo Rodrigues, presidente da Ipsum Home, de apoio a famílias endividadas de Matosinhos. A associação recebe “frequentemente” casos de “pessoas que ficaram desempregadas ou perderam rendimentos significativos e querem continuar a cumprir com os seus compromissos, como créditos”, acrescenta.

A Ipsum Home faz parte da Rede de Apoio ao Consumidor Endividado (RACE), uma estrutura da Direção-Geral do Consumidor e supervisionada pelo Banco de Portugal que congrega dezenas de associações de apoio a famílias endividadas em todos os distritos. O apoio consiste sobretudo na informação e reestruturação de orçamentos familiares.

Todas as associações da RACE que o JN contactou assumem que os pedidos de ajuda aumentaram. “Temos constatado isso, essencialmente no âmbito das moratórias e carências, porque há muitas pessoas em lay-off”, refere Deolinda Silva, da Associação Portuguesa para Observação, Investigação e Apoio na Reeducação em Matéria de Endividamento (Apoiare). Aquela associação sem fins lucrativos, com sede em Lisboa e delegação no Porto, tem pedidos de ajuda por questões de rendas, “sobretudo das habitações sociais”, mas esse é um problema que nem sempre é claro porque “depende de cada Câmara”.

Suspensão

Ou seja, há autarquias que não têm qualquer programa de apoio aos inquilinos municipais, mas outras, como Barcelos ou Covilhã, decidiram suspender o pagamento das rendas. A ajuda é bem-vinda para quem viu os seus rendimentos suspensos, mas essas prestações são para pagar no futuro e isso pode criar endividamento nessa altura. Lisboa, por exemplo, dá 18 meses para que sejam liquidadas rendas suspensas, mas Feira e Funchal dão 12.

Ainda que nenhuma Câmara cobre juros, há famílias de bairros municipais que não sabem como vão conseguir pagar, no futuro, a prestação mais o acréscimo da mensalidade. “Depois vai aparecer não uma renda, mas uma renda mais um acordo que se possa pagar, um acrescento de 2% ou 3%”, realça Fernando Baião, presidente da Associação de Moradores do Bairro da Cruz Vermelha do Lumiar, de Lisboa. O responsável defende que só “um perdão” vai ajudar as famílias a voltarem a uma situação de normalidade.

Natália Nunes, da Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor, também tem recebido mais pedidos de ajuda. No caso dos bairros, espera que haja “abertura para se encontrarem soluções para que as pessoas não percam a habitação”, uma vez que “elas já estão em bairros sociais”.

Dificuldades

  • Água e saneamento

A dificuldade de pagar a água motiva muitos pedidos de ajuda de inquilinos de bairros municipais. Grande parte das câmaras dispõe de tarifas sociais.

  • Créditos

Os créditos de habitação, carro e consumo também são uma grande dor de cabeça. Em muitos casos, como nos créditos ao consumo, as empresas são inflexíveis.

  • Telecomunicações

As faturas de telecomunicações também levam uma percentagem razoável do orçamento familiar. Nestes casos, a possibilidade de renegociação depende da existência de fidelização.

Fonte: Delfim Machado 01/05/2020 às 15:28 www.Jn.pt